8 de Março: lembrar, resistir e transformar

 

O Dia Internacional da Mulher não deve ser apenas uma data de flores, mensagens prontas e homenagens superficiais. Ele existe, antes de tudo, como um lembrete incômodo e necessário: a igualdade de fato entre homens e mulheres ainda não foi alcançada. No Brasil contemporâneo, essa realidade se impõe de forma dolorosa. Em um país que registra milhares de denúncias de violência doméstica todos os anos e onde casos de feminicídio continuam a ocupar as manchetes, o 8 de março não pode ser reduzido a celebração, ele precisa ser também reflexão, denúncia e compromisso coletivo com a mudança.

A violência contra a mulher assume muitas formas. Ela pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial ou simbólica. Além do mais, pode ocorrer dentro de casa, nas relações afetivas, no ambiente de trabalho, nas instituições ou nos espaços virtuais. Muitas vezes, ela se manifesta de maneira silenciosa, por meio de discursos que diminuem, culpabilizam ou deslegitimam as experiências femininas. Em outras ocasiões, ela se revela em sua forma mais brutal: o feminicídio, a morte de mulheres pelo simples fato de serem mulheres.

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma combinação preocupante: de um lado, a persistência alarmante da violência de gênero; de outro, a ampliação de comunidades virtuais que propagam discursos de ódio e ressentimento contra mulheres, frequentemente associadas a movimentos conhecidos como “redpill”. Em diversos espaços da internet, dissemina-se a ideia de que o avanço dos direitos das mulheres seria uma ameaça aos homens ou à sociedade. Essa narrativa, além de distorcida, contribui para reforçar estereótipos e legitimar comportamentos agressivos, criando um ambiente simbólico no qual a misoginia encontra terreno fértil.

Esse cenário torna ainda mais evidente a relevância do feminismo, um movimento que, apesar de frequentemente distorcido ou caricaturado, tem como objetivo fundamental a construção de uma sociedade baseada na igualdade de direitos e na dignidade humana. O feminismo não busca a superioridade das mulheres, mas a superação de estruturas históricas que naturalizaram desigualdades e violências contra estas.

Os próprios compromissos internacionais assumidos pelo Brasil reconhecem essa necessidade, a exemmplo da Convenção de Belém do Pará, a qual estabelece que os Estados têm o dever de adotar medidas eficazes para modificar padrões socioculturais que sustentam a inferiorização das mulheres. De modo semelhante, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) determina que políticas públicas e ações institucionais devem combater práticas e crenças que reproduzem desigualdades de gênero. Esses compromissos foram reafirmados na Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, que destacou a importância da promoção da igualdade de gênero em todos os espaços sociais, especialmente na educação.

No Brasil, iniciativas institucionais também têm buscado enfrentar essas desigualdades. O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça, orienta magistrados a reconhecerem que decisões jurídicas não podem ignorar as estruturas históricas e sociais que condicionam a posição das mulheres. Em contextos marcados por desigualdade estrutural, tratar desiguais como se fossem iguais não produz justiça, ao contrário, perpetua injustiças.

Essa compreensão encontra respaldo em importantes reflexões acadêmicas. O sociólogo Pierre Bourdieu demonstrou que a dominação masculina não se mantém apenas por imposições explícitas, mas sobretudo por meio de estruturas simbólicas invisíveis e naturalizadas. Crenças, práticas e discursos cotidianos acabam por legitimar a desigualdade como se fosse algo natural. Nesse processo, homens podem internalizar posições de poder, enquanto muitas mulheres acabam sendo socializadas para aceitar papéis de subordinação.

Da mesma forma, a historiadora Joan Scott propõe compreender o gênero como uma categoria histórica construída socialmente. Para ela, as diferenças entre homens e mulheres são frequentemente mobilizadas para justificar hierarquias de poder. Ou seja, aquilo que muitas vezes se apresenta como “natural” é, na verdade, resultado de processos históricos e culturais.

Essa percepção já havia sido antecipada décadas antes por Simone de Beauvoir, quando afirmou que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Com essa frase, a filósofa revelou algo fundamental: a identidade feminina não é determinada apenas pela biologia, mas moldada por expectativas sociais que, historicamente, colocaram as mulheres em posições de submissão e invisibilidade.

Reconhecer essas estruturas é o primeiro passo para transformá-las. E é justamente por isso que o feminismo continua sendo tão necessário. Pensadoras como bell hooks e Djamila Ribeiro lembram que a luta por igualdade de gênero não é um projeto individual, mas uma transformação coletiva. Trata-se de questionar práticas naturalizadas, enfrentar discursos discriminatórios e reconstruir as bases culturais que sustentam a desigualdade.

Ainda assim, o feminismo enfrenta resistência, e muitas vezes incompreensão. Não são apenas alguns homens que o veem com desconfiança; muitas mulheres também foram socializadas em ambientes onde a palavra “feminismo” foi associada a radicalismo ou conflito. Superar esse preconceito é essencial, pois negar a importância do feminismo significa, em última análise, ignorar as estruturas que produzem e perpetuam a violência.

Defender a igualdade de gênero não é atacar homens. Pelo contrário: é libertar a sociedade de papéis rígidos e violentos que também aprisionam masculinidades em padrões de dominação, agressividade e silêncio emocional. Uma sociedade mais justa para as mulheres é, necessariamente, uma sociedade mais saudável para todos.

O combate à violência contra a mulher exige políticas públicas eficazes, instituições comprometidas e justiça sensível às desigualdades. Mas exige também algo mais profundo: uma transformação cultural. Isso passa pela educação, pelo debate público e pela coragem de questionar discursos que naturalizam a desigualdade.

O Dia Internacional da Mulher, portanto, não deve ser apenas um momento de homenagem, mas um convite à responsabilidade coletiva. Cada feminicídio, cada agressão, cada silenciamento revela que ainda há um longo caminho a percorrer.

E talvez o verdadeiro sentido do 8 de março esteja justamente nisso: lembrar que a igualdade não é um presente concedido, mas uma conquista construída diariamente, com consciência, coragem e solidariedade.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha sobre o livro: “As Misérias do Processo Penal” de Francesco Carnelutti.

Princípios Constitucionais e Direitos Fundamentais nas Relações Familiares: Reconhecimento das Uniões Homoafetivas pelo STF (ADI 4277/DF e ADPF 132/RJ)