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8 de Março: lembrar, resistir e transformar

  O Dia Internacional da Mulher não deve ser apenas uma data de flores, mensagens prontas e homenagens superficiais. Ele existe, antes de tudo, como um lembrete incômodo e necessário: a igualdade de fato entre homens e mulheres ainda não foi alcançada. No Brasil contemporâneo, essa realidade se impõe de forma dolorosa. Em um país que registra milhares de denúncias de violência doméstica todos os anos e onde casos de feminicídio continuam a ocupar as manchetes, o 8 de março não pode ser reduzido a celebração, ele precisa ser também reflexão, denúncia e compromisso coletivo com a mudança. A violência contra a mulher assume muitas formas. Ela pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial ou simbólica. Além do mais, pode ocorrer dentro de casa, nas relações afetivas, no ambiente de trabalho, nas instituições ou nos espaços virtuais. Muitas vezes, ela se manifesta de maneira silenciosa, por meio de discursos que diminuem, culpabilizam ou deslegitimam as experiências femininas. Em ou...

Resenha: "Do Direito à Desconexão do Trabalho" de Jorge Luiz Souto Maior

  O autor, Jorge Luiz Souto Maior, em “Do Direito à Desconexão do Trabalho”, destaca que a centralidade da tecnologia na vida contemporânea dissolve os limites entre trabalho e vida privada, ampliando a disponibilidade do trabalhador e intensificando o controle, pressão e desgaste psicológico. Nesse contexto, o “direito de não trabalhar” surge como medida necessária para proteção ao trabalhador, revelando o paradoxo do mundo do trabalho atual: embora o emprego continue sendo essencial para dignidade, renda e inclusão social, ele pode se expandir além de seus limites adequados, exigindo novas garantias jurídicas que assegurem descanso e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Deste modo, o direito à desconexão configura-se como um limite à subordinação jurídica, especialmente em suas dimensões objetiva e estrutural, quando intensificada pelo uso de recursos tecnológicos. Ademais, no que concerne à subordinação em si, esta é elemento essencial da relação de emprego, consistindo...

A Lanterna de Hermes: Hermenêutica como Salvaguarda da Integridade Jurídica

  A hermenêutica jurídica não constitui apenas um instrumento técnico auxiliar do Direito; ela representa o seu núcleo vital. É por meio dela que o texto aparentemente frio e estático da lei ganha vida e se transforma em justiça aplicada. Sem o processo interpretativo, a norma permaneceria limitada a um enunciado abstrato, incapaz de dialogar com as transformações sociais e com a complexidade da experiência humana. Assim, é a hermenêutica que permite ao jurista estabelecer a ponte entre o plano abstrato da legislação e a realidade concreta dos conflitos, assegurando que o sistema jurídico cumpra efetivamente sua função social. Essa centralidade da interpretação torna-se ainda mais evidente quando observamos a evolução histórica do pensamento jurídico. A passagem da Escola da Exegese para as concepções hermenêuticas contemporâneas evidencia o abandono da antiga crença na neutralidade absoluta do intérprete. Durante muito tempo, acreditou-se que bastaria aplicar a lei de forma mecâni...

Princípios Constitucionais e Direitos Fundamentais nas Relações Familiares: Reconhecimento das Uniões Homoafetivas pelo STF (ADI 4277/DF e ADPF 132/RJ)

       A família, como entidade sócio-cultural, transcendeu suas origens patriarcais, matrimoniais e hierarquizadas, para se estabelecer como um dos mais dinâmicos pilares da sociedade contemporânea, o que se refletiu na evolução do conceito de família no ordenamento jurídico brasileiro, o qual rompeu com o modelo clássico, regido pela Constituição de 1967/69 e pelo Código Civil de 1916, para assumir um perfil plural, inclusivo e centrado no afeto. Deste modo, a evolução do conceito de família reflete profundas transformações sociais e a progressiva valorização dos direitos fundamentais, com a introdução de novos princípios e valores pela Constituição Federal de 1988. Diante deste avanço, a Constituição de 1988 consagrou a Pluralidade Familiar , reconhecendo, além da família matrimonial, outras entidades familiares, como a união estável e a família monoparental. Assim, a família deixou de ser uma instituição rigidamente definida pelo casamento para se tornar uma dim...

Resenha sobre o livro: “As Misérias do Processo Penal” de Francesco Carnelutti.

A priori, antes de discorrer acerca de alguns dos aspectos essenciais do livro “As misérias do Processo Penal” , revela-se importante apresentar brevemente o seu criador, o renomado advogado e jurista italiano Francesco Carnelutti, nascido em 15 de maio de 1879, em Udine na Itália, o qual ainda atuou como docente em diversas Universidades Italianas, a exemplo das Universidades de Roma e de Bocconi. Destaca-se ainda que Carnelutti foi um dos principais inspiradores do Código de Processo Civil Italiano de 1940 e um dos fundadores da União de Juristas Católicos Italianos, pois além de um exímio jurista, foi um adepto fervoroso da religião católica, fato que revela-se notório nas argumentações e reflexões desenvolvidas no decorrer de sua obra. Deste modo, após uma breve apresentação do autor, abre-se espaço para a discussão sobre a sua obra, escrita em 1957, na qual Carnelutti debate de forma crítica as problemáticas do processo penal, pontuando as suas imperfeições e limitações, as suas s...